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sexta-feira, 9 de julho de 2021

Síndrome de Burnout

O que não é possível ver concretamente, facilmente o cérebro pode ignorar, discriminar, criar um pré-conceito. Ou seja, o cérebro pode facilmente recorrer a alguma defesa quanto ao que não consegue visualizar, compreender. Faz parte da vida!

Em se tratando de conflitos psicoemocionais, em que realmente não é possível para quem está sentindo a complexidade dentro de si materializá-la para que possa ser visualizado e compreendido, a coisa pode ganhar uma complicação gigante e até mesmo, em vários casos, surgir questões desnecessárias. As questões desnecessárias podem surgir porque para muitos conflitos psicoemocionais da turbulenta atualidade existem soluções, apesar do momento complexo fazer parecer que não. Então, basta cuidar previamente, devidamente, ter um pouco de paciência, que a questão, mesmo complexa, vai solucionar.  

Pois bem: como aqui vamos refletir sobre a Síndrome do Burnout (um conflito psicoemocional de nível gravíssimo), podemos iniciar perguntando: Quem é o Burnout? O Burnout recebeu o seu nome em inglês. Podemos observar que “burn” significa queimar e “out” significa terminar. Dessa forma, o Burnout é uma coisa dentro da criatura humana que consegue “terminar de queimar”, ou “queimar tudo”. Aí vem outra curiosidade: O que o Burnout, traduzido para o português, termina de queimar? Bem, simplesmente, o Burnout não deixa absolutamente nada para a pessoa poder se autoajudar. É queima total!

O que é encontrado na clínica em relação ao Burnout? Inicialmente, em relação a minha experiência profissional, fica em evidência que o Burnout está relacionado ao trabalho que a pessoa realiza o qual parece ser tido como um encontro com o “amor perfeito”, e é um grande vilão contra pessoas fortes. Sabe aquela pessoa que comumente é considerada por todos como sendo forte? Pois é: O Burnout compromete o tipo de pessoa que geralmente o primeiro adjetivo que lhes é dado é de serem fortes. Agora, como pode existir uma coisa que consegue comprometer seriamente, ou no seu ápice derrubar literalmente, uma pessoa forte?

O Burnout é complexo! É silencioso! O seu processo ocorre de forma escalonada, com etapas de desenvolvimentos, com forças diferentes. Isso pode ocorrer ao longo dos anos, ou de alguns anos dependendo da pessoa. A pessoa passa por estafas, estresses, ansiedades, fica sob cansaço contínuo (fadiga), o cansaço sempre está presente de alguma forma. A pessoa passa por processos depressivos sem paralisar. Ou seja, questões que lhe são intimamente delicadas, conflituosas, não as paralisa, não as afasta do trabalho - do seu “amor perfeito”. As pessoas consideradas fortes revelam a qualidade de resistirem, resistirem, resistirem, a tudo de complicadinho que existe e aparece em suas vidas. Ao longo do caminho, essas pessoas não param e nem são paradas, pois existe nelas uma obrigação de continuar, continuar, continuar e, óbvio, mantendo sempre a cobrança de perfeição para viver com o seu “amor perfeito”: o trabalho.

Como o Burnout parece atuar nessas pessoas? A impressão é que o Burnout vai sugando, minando, esgotando... absolutamente tudo que encontra como energia dentro da pessoa. Parece ocorrer um processo de implosão “dentro da pessoa”; ela vai se estourando por dentro. O peso emocional disso é insuportável! Eis que surge um fenômeno terrível.  A pessoa parece entrar dentro de uma bolha que produz um desligamento afetivo. Ou seja, ocorre um embotamento afetivo. Ela sabe que ama pessoas, que gosta de pessoas, que admira pessoas, que tem pessoas que lhe são importantes, mas não consegue alcançar mais o desejo para estar com tais pessoas, para viver uma rotina com tais pessoas. Isso faz com que ela passe a se cobrar mais ainda, pois tem a consciência de que possui sentimentos, mas não consegue sentir, não consegue se unir ao outro. O desligamento do afetivo, o rompimento com vínculos afetivos, fazendo com que a pessoa não consiga ser mais sensível a nada, a ninguém, parece surgir como um “mecanismo de defesa”. Isso pelo motivo de que se a pessoa sentir ela pode estourar, ela pode explodir. Após suportar muita coisa difícil ao longo do caminho, sempre salvaguardando o seu “amor perfeito”: o trabalho, eis que o Burnout (como Dalila conseguiu fazer com Sansão) consegue lhe tirar também a força pra trabalhar. Queima a sua última energia.  Pois é: ao longo do caminho, a pessoa vai suportando tudo: estafas, estresses, cansaços (fadigas), tristezas, insônias, ansiedades, frustrações, pânicos, até ruir completamente por conta da maldita exaustão em um nível descomunal para ser suportada por uma criatura humana. A pessoa vai se desligando afetivamente de tudo: família, amizades, lazeres, até que o Burnout a obriga também a parar o que lutou exaustivamente para manter: o trabalho.

O Burnout, com o seu terrível poder de “terminar de queimar”, impõe a paralisação. Eu, particularmente, pela questão do Burnout conseguir derrubar pessoas incomuns, fortes, inteligentíssimas, acabo materializando-o, para facilitar bem a compreensão, na revelação da história em que Dalila conseguiu o grande feito de paralisar a privilegiadíssima potência em Sansão. Só que as pessoas que o Burnout consegue comprometer: incomuns, fortes, inteligentíssimas, não perdem a sua essência, a sua potência, as suas qualidades. Um descanso correto, um tratamento bom e eficaz, recupera o que a pessoa necessita para retornar para a sua experiência de vida potencialmente ativa.

Eu escolhi escrever sobre o Burnout de uma forma “simples”, apesar desse conflito psicoemocional possuir complexidades, pela questão da importância de considerarmos que a experiência de vida sob a “sociedade moderna”, sob a “sociedade da aparência”, pode comprometer o valor de virtudes necessárias: compreensão, respeito, confiança, aceitação das realidades da vida, privilégio também da verdade objetiva. A consideração em relação ao valor das virtudes tende a colaborar bastante contra o risco de se fazer interpretações equivocadas através da ignorância, do descaso, do pré-conceito, da discriminação, da alucinação, de lançar a experiência de vida apenas sob a verdade subjetiva, ou seja, se não sente a coisa, se não está vendo a coisa materializada, não acredita que ela realmente existe. Isso promove a desconfiança, o medo, entre outros sentimentos complicadíssimos de elaborar que podem facilmente gerar prejuízos e/ou perdas desnecessárias.

Por fim, é muito importante também o cuidado de não fazer uma salada de frutas de tudo que existe olhando apenas para a mistura como se essa fosse uma coisa só. Conflitos psicoemocionais e transtornos mentais possuem realidades diferentes, como conflitos psicoemocionais possuem realidades diferentes, como transtornos mentais possuem realidades diferentes. É necessário identificar e conhecer o que, de fato, está comprometendo o psiquismo da criatura humana que é única, para realizar um tratamento correto e obter um resultado eficaz. Pois, é possível solucionar também conflitos psicoemocionais, recuperar a normalidade da vida, entre eles, ainda bem, até o Burnout é possível resolver, afinal de contas, a ciência nos contempla com o seu excelente caráter de conhecimentos objetivos. ;)

Sandra Valeriote - psicanalista

*O tratamento do Burnout, necessariamente, precisa da avaliação e do acompanhamento de um médico psiquiatra. 


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