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domingo, 17 de março de 2019

Lula, Bolsonaro, mudanças sociais.


Relato aqui uma parte, entre outras, do que eu vi acontecendo no movimento político do final da década de 80 até a atualidade, envolvendo figuras de grande expressão política. 


Final da década de 80. 

O PT havia conquistado um número vantajoso de filiados da sociedade civil para o partido. Parecia moda o broche da estrelinha do PT pregado na roupa de cidadãos comuns. Mas, a moda da estrelinha do PT sendo usada por cidadãos comuns era uma pequena vantagem comparada a outra, que se deu na esfera do poder. O partido do PT já se destacava também com um número expressivamente vantajoso de políticos eleitos em todas as esferas: municipal, estadual, federal. Ou seja, havia político do PT eleito em tudo quanto era canto desse país, trabalhando em redutos eleitorais. Os redutos eram bem administrados por figuras políticas ou cidadãos locais com bom nível de influência. Todos tinham como principal característica a lealdade ao partido. 

Então, nesse período já era evidente que o partido também desejava conquistar o poder maior: a presidência da República. Para essa conquista, todo investimento foi no Lula. Ora, em se tratando da cúpula do PT, com José Dirceu, Genoino, Dilma, e outros, parece que a biografia do Lula era menos complicada para maquiar. Pois bem! O partido do PT já tinha um bom número de cidadãos civis filiados, número expressivamente elevado de políticos eleitos, alianças com partidos importantes acontecendo. Mas, eis uma questão que parecia ser um calo no pé do partido muito difícil de resolver: o Lula, sendo a única figura com possibilidade para ser o candidato que poderia conquistar a presidência da República, evidenciava grande talento para desempenhar o papel de líder sindical. Era um talento que encantava sindicalistas, e abocanhava uma parte da sociedade jamais suficiente para conquistar a vitória. Os discursos dele revelavam agressividade, evidências de que não tinha habilidade para diálogos, que não estava nem aí se precisasse derrubar tudo pela frente. No mais, do ponto de vista da estética, o Lula aparecia vestido informalmente, com uma barba que parecia não ter cuidados higiênicos. Eram questões que podiam não interferir para uma eleição de presidente de sindicato, vereador ou deputado, mas para presidente da República a realidade era outra, que evidentemente não combinava com os discursos e a aparência que ele apresentava. Pois bem! Eis que surge um momento mágico. Pode acreditar! Não foi apenas no conto da Cinderela que existiu uma varinha mágica; no conto do Lula também aconteceu:  com a "varinha mágica do marketing", eis que o Lula apareceu para a disputa da eleição em 2002, não mais como um sapo barbudo que parecia que ia engolir tudo e todos. O Lula tinha se transformado num príncipe encantador: todo bem arrumadinho, falando de forma correta, com muita calma, um sorriso de galã de novela; até a barba dele parecia ter recebido tratamento de hidratação. É isso! Sob um passe de mágica (marketing), o Lula agressivo se transformou no Lulinha paz e amor: encantou e ganhou.

Numa democracia, o povo (a maioria) não consegue eleger um presidente que simboliza o oposto da experiência de vida real. Dentre as proeminentes características que podem ser destacadas como existentes na sociedade, no período em que o Lula concorria à presidência da República, aparecia como realidade no Brasil a alegria, a simpatia, a gentileza, a compaixão, a expectativa do desenvolvimento (esperança), a paz. Em outras palavras, o que era oposto ao povo aparecia evidentemente no Lula. Quando ele conseguiu teatralizar exatamente a realidade que o povo conhecia, foi aceito e eleito. Podemos dizer que a aceitação partiu de uma sensação coletiva de segurança e confiança de que aquela realidade estaria sendo preservada. Não precisava desconstruir nada, bastava preservar o que existia e seguir com a excelente condição financeira para realizar grandes conquistas... Pois é! O Lula conseguiu deixar em evidência que havia se transformado, que também tinha entrado no caminho conhecido por todos... Mas, não era a verdade. Sinceramente, se fosse coisa de cinema, o marqueteiro Duda Mendonça e o Lula, sem sombra de dúvida, destacariam-se no ganho de premiações. Quem sabe as gerações futuras não verão esse ganho por parte dos atores que conquistarem o papel para interpretá-los! 

Bem, para nossa geração, o que existe é a experiência com a realidade atual. E, atualmente, todos já sabem que a mágica não perpetuou... Mas, convenhamos, é essa a realidade da mágica. Mágica é só mágica! O príncipe Lula não podia durar para sempre... Mas é preciso evidenciar que os caminhos conhecidos oferecem conforto, segurança. Acontece que no decorrer do governo do PT, também a sociedade brasileira foi sendo desviada dos seus caminhos conhecidos. E não parece justo apontar que esse desvio foi da responsabilidade apenas do PT-Lula. A questão é que parece que a cúpula do PT ficou totalmente focada em “um” ideal, e por esse ideal teve a necessidade de se deslocar para o lugar da discrição. Pois é!  A impressão é que o PT, precisando ser visto pelo povo apenas a cada 4 anos, acabou deixando espaço para existir um governo paralelo. Dessa forma, com o partido vivendo na sombra, há anos a sociedade civil vinha identificando como governo os principais meios de comunicação – um governo formado pela mídia. Há anos, esse governo (mídia) vinha passando por cima da cultura brasileira, dos valores conhecidos pelos brasileiros, numa evidente tentativa de formar aqui um outro povo, sabe-se lá copiado de onde. Pode ser dos EUA ou da França; do Afeganistão pode ter certeza que nada foi copiado. Então, temas conflituosos em outros países, que não existiam no Brasil, passaram a ser tratados no país como realidade também do povo brasileiro. Por acaso, no Brasil, há registros de grupos atuantes semelhantes ao Ku Klux Klan?


Então, como a liderança política do PT precisou ficar na sombra, realizando suas grandiosas jogadas de corrupção para servir ao comunismo, não deixando de agradar o socialismo (outra situação que parece servir para um filme: comunismo com socialismo vivendo uma linda história de amor no Brasil. Talvez, no futuro também podem fazer um filme dessa linda história de amor que parece ter superado a de Romeu e Julieta, do Shakespeare. Como tema musical, Endless Love, do Lionel Richie e Diana Ross, será perfeito. Ah! Para esse filme os atores principais precisarão interpretar o Lula e FHC), quem se destacou como governo, para o povo, foram os principais meios de comunicação. Há anos, aparece nitidamente destacado o repúdio do povo brasileiro contra os principais meios de comunicação. Um repúdio ignorado. Para entender melhor, eis um exemplo para servir como comparativo: Um indivíduo tem uma fábrica de sapatos. Surge um crescimento expressivo de consumidores se queixando dos produtos. O que o fabricante faz? Ignora as queixas e continua com a fabricação no mesmo jeito. Não aceita ceder, não considera o excesso de queixas. Bem, com essa decisão do fabricante é muito fácil saber qual será o final da sua fábrica... Pois é! O público [consumidor] dos principais meios de comunicação vem, durante anos, excessivamente apresentando queixas, e a fabricação dos conteúdos jamais deixou de ser a mesma.


Período atual

A situação se inverteu. O que havia no Lula, quando ele tentava se eleger para presidente da República (antes na varinha mágica (marketing)), passou a existir no povo. As características mudaram. Atualmente, entre as proeminentes características possíveis de observar no povo brasileiro estão a grosseria, a antipatia, a maldade, a desarmonia, a agressividade.

O presidente Bolsonaro não surgiu do nada e gerou um conflito social, aliado a uma força tarefa para haver retrocesso. O conflito social, que esteve aparentemente nítido durante anos, fez surgir o Bolsonaro. O povo vem brigando com a mídia há anos – esse povo nem fazia ideia da existência do Bolsonaro. A impressão é que as queixas do povo iam em direção ao nada e ficavam guardadas no lugar nenhum. 


No período da eleição, com as principais lideranças políticas, juntamente com os principais meios de comunicação, evidenciando não estarem entendendo o que estava acontecendo no Brasil, em relação a ascensão do Bolsonaro, muitas vezes, para mim, era difícil acreditar que eles realmente não estivessem entendendo. Era difícil, pois, acreditar que realmente não estivessem entendendo confirmava que eles estiveram durante anos vivendo em outro mundo que não o Brasil. Realmente, as queixas do povo foram ignoradas pelos que estavam governando. E, sinceramente, a voz do povo ignorada [durante anos] ecoou alta na voz do candidato que foi “democraticamente” eleito para presidente da República, Jair Messias Bolsonaro. 

Nos discursos do Bolsonaro havia a simplicidade de apenas repetir as queixas que o povo fazia durante anos. Não teve mistério algum para os que estavam vendo a realidade do Brasil! O Bolsonaro não era isso, aquilo, ou aquilo outro de ruim que afirmavam para tentar derrubá-lo da ascensão, ele foi simplesmente a voz do povo falando em alto e bom som. E falando uma realidade que esteve durante anos sob a luz do sol.


Pois é! Ao contrário do Lula - que para ganhar a eleição precisou desconstruir os discursos agressivos e maquiar sua essência, evidenciando que a maioria do povo se identificava com a paz - o Bolsonaro só ganhou a eleição por conta de construir discursos agressivos, nesse caso, evidenciando que, atualmente, o povo está vivendo sérios conflitos emocionais.   


No momento atual, o ataque que se vê contra o presidente Bolsonaro se torna um ataque que vai direto contra o povo que foi ignorado durante anos. Um povo que evidencia estar absurdamente carente da sua essência, natureza, angustiado pela falta do direito de viver a sua própria realidade humana, cultural. Um povo que teve orgulho de ter como herói nacional o Pelé, sem jamais apontar para a cor de pele. Uma povo que teve uma geração expressiva de jovens que curtia as músicas do Cazuza, que sofreu pela situação que ele precisou enfrentar, sem jamais apontar dedo para questão de sexualidade. Um povo que aplaudia a força, coragem e inteligência da Tieta do Agreste (novela, Tieta), da viúva Porcina (novela, Roque Santeiro), que torcia por elas, independente do que faziam ou não, evidenciando claramente não ter a mulher como ser inferior, proibidas de viver a vida como quisessem. Um povo que delirava com a bandeira do Brasil que o corredor da fórmula 1, Ayrton Senna, colocava para fora do carro a cada vitória. Quando o Ayrton Senna morreu, o Brasil parou literalmente para o povo chorar, evidenciando que em primeiro lugar nesse país era necessário deixar o povo resolver a empatia. Um povo que não fazia questão de contribuir para causas nobres. Um povo que já tinha chegado no nível de saber reconhecer, respeitar, admirar os melhores por conta do talento, do caráter. É isso aí! Pegaram questões sociais complexas, questões culturais conflituosas, existentes em países como EUA, França, e enfiaram goela abaixo do povo brasileiro que vinha pelo caminho privilegiando uma existência pacífica, lidando bem com a generosidade, irmandade, privilegiando bons valores, aceitando gradativamente as mudanças sociais importantes. Mas, não pegaram por conta própria, apenas deram sequência. Uma sequência liberada para ser imposta pelo governo paralelo (mídia). Pois, na transição da democracia para o socialismo ficou em evidência que precisava dividir o povo - o famoso NÓS CONTRA ELES que surgiu. E assumindo o governo, o Lula incentivou imediatamente, implantando, no primeiro dia, cotas para todas as minorias. Ou seja, uma forma fácil de detonar a meritocracia conhecida e aprovada pelo povo brasileiro.  

O NÓS CONTRA ELES é uma guerra social com questões imperceptíveis, complicadíssima de se resolver. Não há exército, interesse legítimo de espoliação, não há nem mesmo a ilusão de que um dia haverá o fim, podendo fazer quem está nessa guerra sentir a esperança. Um assunto tratado sistematicamente, em cima de uma sociedade que não o reconhece como comum na realidade, tende a gerar enlouquecimento, angústia, desespero. Como eu, milhares de brasileiros cresceram sem consciência de diferenciação de cor, de pensar em mulher como ser inferior, de fazer questão de saber orientação sexual do outro. Isso é uma guerra que provoca implosão social, produzida pelos próprios membros da sociedade. A “única” luz que aparece como tendo a solução para resolver o conflito social é o Estado. Eis a questão: O NÓS CONTRA ELES favoreceu demais a determinados grupos e indivíduos protegidos atrás do Estado, sendo possível ainda hoje escutar partindo de alguns que o compromisso de cuidar de tudo é do Estado. Esse Estado, que vai resolver todas as questões, precisa que cada indivíduo esteja individualizado, desconfiando de tudo e todos, acreditando em perseguições e, não bastando tanta coisa ruim, desesperançoso. Em outras palavras, o NÓS CONTRA ELES é promovido por um Estado que tem a necessidade de ter uma sociedade esquizofrênica. Quem é esse Estado?

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