Na vitrine do governo FHC existia o programa Bolsa Escola.
Eu acredito que o motivo principal da criação desse programa tenha sido pela
questão de existir no país um número expressivamente elevado de famílias de
baixa renda que colocavam seus filhos no período da infância para trabalhar.
Com esse programa, os pais passaram a receber uma ajuda financeira do governo
para que a realidade dos filhos fosse mudada. Dessa forma, a consciência de que
o lugar de toda criança era estar na escola e não trabalhando acabou sendo
formada também nas famílias de baixa renda. Atualmente, pode parecer estranho
essa questão, mas no período era comum escutar mães e pais da classe baixa
afirmando que era inútil o filho estudar. Isso não é uma situação que me
falavam existir. Vez ou outra, eu [mesma] escutava mães e pais da classe baixa falando que era besteira
filho estudar. Pois bem, criancinhas se tornavam babás, domésticas, ajudantes
de adultos - até mesmo em trabalhos pesados. Muitas vezes, trabalhavam apenas
para ter a comida, roupas usadas, pois só o fato dos pais não precisarem
alimentar ou vestir seus filhos já era um ganho (a inflação era altíssima). Classes privilegiadas lucravam
com a situação. Bastava uma merreca de dinheiro, a necessidade da comida (muitas
vezes, o que se dava para a criança comer era apenas o resto), para ter a casa limpa, roupa
lavada, comida na mesa. Então o programa parece ter contribuído bastante para
surgir uma nova consciência: a consciência do direito e importância da
criança estar na escola.
Pois bem! Após, veio o governo do PT que pegou a realidade
das crianças já nas escolas. E, de acordo com o desabafo que escutei de uma
excelente professora, veio outra mudança que, dessa vez, ocorreu dentro da
escola. No período, parece que existia a necessidade de transmitir a imagem do país
para o mundo de que a questão do analfabetismo estava resolvida no país, ou quase. Para
isso, no primário, o aluno reprovado tinha que deixar de existir. No desabafo da professora,
entendi que a ideia não foi bem aceita por um número expressivo de professores,
pois, esses não admitiam aprovar crianças que não tinham conseguido aprender. A
impressão é que estava doendo muito em professores a questão de estarem tirando deles a sua
realidade, grandeza, que era fazer a diferença na vida de uma criança. Eis que
entrou para resolver essa questão o que costumam chamar de “faz-me rir” (o
dinheiro (verba)). Entre (1) pegar firme com as crianças até elas conseguirem
aprender de fato (precisando, às vezes, ocorrer a reprovação), ou (2) aprovar
(independente da criança ter aprendido ou não), bem, parece que a decisão
acabava ficando com a segunda opção - pois, nessa, o "faz-me rir" chegava. Com a documentação das escolas declarando
que, por exemplo, de 100 alunos os 100 haviam sidos aprovados, estava resolvida a
situação do analfabetismo. Na época (eu via), criaram até uma propaganda para a TV com
uma mulher subindo uma escada dando a entender que a alfabetização no país
estava espetacular... Obviamente, ninguém ia ficar indo para as escolas
procurar saber se era verdade ou não.
Então, segundo o desabafo da professora, haviam professores que não conseguiam aceitar o método de aprovar sabendo que a criança não estava
preparada para os conteúdos da série seguinte, e parece que a situação acabou
gerando em professores a depressão, pedido de licença sem vencimento, antecipação no pedido de
aposentadoria.
Eis que no fim do desabafo a professora concluiu: “Sandra, o
futuro dessas crianças está seriamente comprometido.” Pois bem! O futuro chegou! As
crianças cresceram! Para as milhares de crianças que foram aprovadas sem o
aprendizado devido, e hoje necessitariam estar trabalhando para o próprio bem e o bem do país, não há base que
torne possível passarem em concurso público. No setor privado, as empresas
criaram mecanismos complexos para contratação. É necessário ter currículo
analisado, passar por entrevistas. Vamos ser sinceros? Qualquer um sabe que é impossível chegar ao RH de qualquer empresa as crianças que foram aprovadas nesse método - sem terem tido aprendizado devido. Pois é! A impressão é que quem acabou recebendo
essas crianças de braços abertos, dando a elas algum rendimento financeiro, foi
o mundo do crime. Bem, acentuando a sinceridade, é possível contar com o povão que conseguiu entrar no mercado de trabalho: onde tem
trabalho para quem mal consegue escrever o próprio nome? Para quem nem ao menos
desenvolveu a noção de limite? As indústrias, grandes empresas, até mesmo os
pequenos comércios, aprovam todo mundo? Eis a questão: essa turma, que hoje
está na casa dos seus vinte anos, que mal consegue escrever o próprio nome, no
governo do PT estava na lista do “aprovado” para convencer o mundo que no
Brasil a educação estava acontecendo para servir de exemplo.
Agora chegamos no governo do Bolsonaro. Parece que a
realidade das crianças estará mudando novamente. Dessa vez, possivelmente, parece que a
criança será olhada pela mídia que trabalhará no sentido de fazer a sociedade
olhar também, com o dever de intervir em decisões do governo consideradas de
risco. Isso pode ser positivo no sentido dos professores e crianças saírem do lugar de abandonados à própria sorte. Pois, muito da sorte de um país está com esses
dois: professor e criança. A questão é que pelos anos de descasos, omissões,
decisões erradas no passado, a sociedade atual parece estar passando por um
período de ter que lidar com questões complexas – isso gera a sensação de
exaustão. Então situações como, por exemplo, a mídia fomentar discussão na
sociedade atual se as crianças devem ou não cantar o hino nacional da escola podem
sinalizar que a mídia está numa tremenda falta do que fazer. O que fica valendo
um risco sério da sociedade se voltar contra a mídia; desacreditar a mídia;
atacar a mídia. Por que é um risco sério? Porque a sociedade tem necessidade também
do trabalho realizado pela mídia.
Detalhe: No Brasil, parece que a internet produziu uma
fantasia que faz acreditar na realidade de um país dos iguais -
gerando assim um conflito dificílimo de resolver. Não há como conquistar o
respeito pela diferença, e conseguir realizar boas transformações, acreditando
em igualdade. O meu relato revela o que eu vi e escutei na região que eu moro. Em
regiões privilegiadas, com IDH bom, acredito que os próprios pais, com os
filhos vivendo a mesma realidade de não serem reprovados, tiveram o cuidado
para fazer acontecer o aprendizado devido. Em regiões como a minha, IDH baixo, é
preciso entender que qualquer coisa dada para uma criança pode ter o sentido de
ser muito bom. Ou seja, se uma criança vai para a escola e encontra lá a merenda, já
está bom demais. É isso aí! Se existiram homofóbicos, conservadores, votando no
Bolsonaro, pode-se dizer que estão na lista como minoria. Quem está na lista como maioria, responsáveis pelo Bolsonaro ter sido eleito o Presidente da República, são os seres humanos/cidadãos eleitores que acreditaram no governo do FHC que o estudo
era valioso, que seus filhos teriam um bom futuro, e descobriram no governo do
PT que era tudo mentira. Hoje, milhares de crianças que foram aprovadas no
ensino primário (sem condição alguma de serem. Apenas para o governo do PT mostrar ao mundo que estava realizando
uma educação de qualidade, acabando com o analfabetismo no Brasil) estão armados e sob a mira da polícia. E nesse detalhe, algo muito importante para a atualidade, está a questão dos que, por privilégio, parecem passar informações do Brasil para a imprensa internacional. É possível perceber, através de informações produzidas equivocadamente na imprensa internacional sobre o Brasil, que muitos desses que informam só conhecem a realidade da zona sul da capital do Rio de Janeiro e a da Av. Paulista da capital de São Paulo. O Brasil é gigante! Em várias partes desse país gigante é possível encontrar realidades específicas. Em outras palavras, no Brasil, é comum encontrar realidade diferente de outras realidades.
Outro detalhe que é facílimo para adultos entenderem. Um
indivíduo adulto precisa ficar com um grupo de pessoas. Esse grupo começa a
conversar sobre um assunto que para ele só existe o “não saber”. O indivíduo
não sabe nada do assunto e nem consegue entender. Eis que surge dentro desse
indivíduo a “angústia do não saber”. Entre hipóteses do que a angústia pode
provocar no indivíduo temos: extremo desconforto, desespero, raiva, sensação de
estar com as pessoas erradas, desejo de sair de perto das pessoas, etc. Agora,
pensa essa situação para um adolescente que passou toda a infância sendo
aprovado na escola sem saber nada. Como fica esse adolescente [com as
questões da puberdade explodindo dentro de si] dentro de uma sala de aula sob o "não saber" - que precisava ter aprendido na infância?
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